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Itapira, 28 de Fevereiro de 2024 -
26/09/2022
Luiz Santos: 505 anos da Reforma Protestante: Tensão entre a Fé e a Política

Há um ditado popular que diz: ‘Política e Religião, não se discutem’. Bom, à primeira vista, parece um sábio conselho, ainda mais nesses dias de intolerantes e beligerantes polarizações. Entretanto, há um outro conselho, esse mais sábio: ‘É justamente porque não discutimos política que tantos pilantras ocupam os postos mais honrosos e porque evitamos debater religião que velhacos e falsos profetas ocupam tantos púlpitos’. Esse conselho teria sido dado pelo príncipe dos pregadores, Charles Hadon Spurgeon. Na verdade, política e religião estavam no centro das preocupações e dos labores dos reformadores protestantes no distante século XVI. Evidentemente que os homens daquela época não se deixavam levar por questões comezinhas, disputas egoístas e no fim das contas, não se sustentavam com argumentos falaciosos e superficiais como hoje se vê. Verdadeiramente, as disputas daqueles dias foram acaloradas, às vezes passaram dos limites, o emprego de força e violência esteve presente em muitas ocasiões, entretanto, o mundo era outro. Contudo, o que estava em jogo não era a vitória de um grupo, partido ou ideologia. Não era a consagração de um líder ou a simplória, porém desastrosa, supressão da oposição. Longe disso. O que estava em jogo era a glória de Deus e o desejo de ver cumpridos os seus propósitos em um mundo corrompido e depravado. A busca da cura para uma igreja pervertida e nos limites da apostasia. A conversão do Estado absolutista em um instrumento de cuidado, proteção e promoção da dignidade da pessoa humana. Por isso, a igreja em reforma daqueles dias, não trouxe para a arena dos debates as questões que envolvessem em primeiro lugar moralidade e valores cristãos, tão caros a nós ainda hoje, mas sim, o que era mais essencial, qual o lugar da Palavra de Deus na totalidade da existência. Assim, antes da moralidade e dos valores estão os pressupostos e esses devem nascer das Escrituras e tudo deve ser passado pelo seu crivo. Aquilo que não suportar, se ajustar, enquadrar no padrão exigido das Escrituras, não pode ser recebido ou aceito. As Escrituras não descrevem formas e maneiras, mas princípios. No que diz respeito à igreja, por exemplo, não há na Bíblia uma descrição dogmática sobre a forma do culto, o horário, o estilo de música, a posição corporal, os gestos ou o estilo do templo etc. E há espaço suficiente para ‘divergir’ na forma de governo, modalidade batismal e regularidade da ceia. Entretanto, os princípios estão lá e são inegociáveis, o culto deve ser a Deus somente, deve ser cristocêntrico e espiritual. As orações, devem ser dirigidas ao Pai e só devemos e podemos pedir, em nome de Jesus, o que é de conformidade com a vontade santíssima do Senhor. A Bíblia deve ser a única regra de fé e prática da igreja, a fonte de suas doutrinas e a instância recursal mais alta em matéria de fé, e assim por diante. Quanto a política e a função do Estado, as Escrituras não descrevem qual a forma de governo ideal. Nem mesmo podemos afirmar que a democracia seja um expediente defendido pela Palavra de Deus. Entretanto, Deus instituiu por meio dos seus mandatos, ainda no paraíso sem pecado e depois da Queda de Adão e ao longo da revelação orgânica desde o Antigo Testamento, um princípio de autoridade delegada ao homem. A função mais básica do Estado é a de proteger a inviolabilidade e a sacralidade da vida em todos os seus estágios (do nascituro à velhice), promover o desenvolvimento integral da pessoa humana e regular a vida em sociedade, com o propósito de restringir o mal, punir os faltosos e promover os homens de bem e todas a virtudes. Conforme princípio inferido das Escrituras, o Estado deve promover de tal sorte um ambiente de paz e prosperidade, que a igreja seja protegida e possa cumprir a sua essencial missão: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. Isso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2.1-4) e ainda: “Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela" (Jeremias 29.7).  Assim, as batalhas travadas no século XVI nos ajudam hoje a evitar tanto a paixão cega, quanto a superficialidade pueril e uma isenção irresponsável. Devemos tratar de todas as questões que envolvem a vida com o senso da missão dada por Deus a Adão de ser o seu representante na criação. Por isso mesmo, só boas ideias e entusiasmo não bastam para vivermos a nossa vocação. É nosso dever julgar todas as coisas pelo padrão das Escrituras e entendendo e respeitando os limites de atuação de cada esfera. O Estado não precisa ser necessariamente cristão para cumprir a sua missão. Uma Teocracia no curso dessa história é alguma coisa não prevista ou desejada pela Bíblia. Podemos afirmar que a Teocracia deve ser o regime da igreja, da comunidade dos discípulos. O Estado deve ser lembrado pela igreja de suas tarefas e de sua comissão, mas cabe a ele (Estado) ir além da religião organizada e confessada e servir a todo homem, pois todos, mesmo os que não saibam ou reconhecem portam a imagem como a semelhança de Deus e só por isso, merecem todos ser cuidados com toda a dignidade e é essa a tarefa da política: o bem comum. Política e religião se debatem sim, para o melhoramento do mundo e a glória de Deus e não para espalhar o horror do que há de pior em nós.

Reverendo Luiz Fernando é Ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil



Fonte: Luiz Santos

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