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Itapira, 27 de Setembro de 2021 -
19/07/2021
Luiz Santos: Procura-se Ovelheiros (1)

Em uma viagem que fiz pelo sul do Brasil há vinte e dois anos, deslumbrado com o exuberante cenário de precipícios, cascatas, prados de imensas extensões de campo para o gado, de repente, em uma propriedade rural li o seguinte em uma placa: ‘Procuro um ovelheiro’. Confesso que não sabia exatamente do que se tratava, supus que eu era o único não gaúcho naquele ônibus e estava certo, perguntei ao sujeito que viajava na poltrona ao lado do que se tratava. Naquele dia fui informado que possivelmente o proprietário estava querendo comprar um cão da raça ovelheiro-gaúcho, desenvolvido naquela região. Tratava-se de um cão pastor para ajudar nas lidas com o rebanho. Penso que muitas igrejas deveriam fazer o mesmo anúncio e colocar à frente do templo e divulgar em suas redes sociais, quando da sucessão pastoral: Procura-se um ovelheiro! Evidentemente, que não o cão da referida raça, mas um pastor ovelheiro, isto é, que tem paixão pelo rebanho, que gosta do ‘cheiro’ das ovelhas e, portanto, de viver rodeado delas. Como professor de Seminário, não raras vezes quando tratamos das várias maneiras de configuração e realização da vocação pastoral, ouço alunos dizerem que não têm inclinação para fazer a tarefa de um evangelista, que não se vê pregando o Evangelho em qualquer lugar que não seja o púlpito, que não gosta de fazer visitas e que sua vocação é o gabinete pastoral. Alguém já até me disse que ama mais os livros do que o povo, e, portanto, será um pastor de gabinete. Geralmente aos que amam os livros mais que o povo recomendo bem-humorado e com amor, que deixem o Seminário e façam um bom curso de Biblioteconomia, oferecido em excelentes universidades do Brasil. Verdadeiramente as funções atribuídas ao ministro, no exercício do seu pastorado e as irreais expectativas dos Conselhos e das igrejas, reduzem o pastor (ou aumentam a carga sobre os seus ombros), a um administrador, arquiteto e mestre de obras, relações públicas, promoter de eventos para o entretenimento da comunidade, o homem que dará a solene e última palavra sobre a cor do berçário. Isto, quando não cabe a ele a verificação do som, a distribuição do boletim, abrir e fechar o templo e outras atividades comezinhas que, diretamente, nada têm a ver com o seu chamado. Sem falar das muitas fugas para os clubes de serviços, associações sociais e outras atividades que mais lhe roubam o tempo do que necessariamente oferecem a oportunidade de falar e testemunhar abertamente. A igreja precisa e com urgência de pastores ovelheiros, homens que se dedicam ao rebanho nos essenciais do seu chamado, com zelo, excelência e eficiência. Precisa dos Teólogos Acadêmicos, claro, mas só quando os Teólogos da Academia têm como alvo principal a Igreja, como ensina Kevin Vanhoozer: “Para que servem os Teólogos? Para treinar pastores-mestres (Ef 4.11) ou, melhor ainda, para se tornar um deles: Um pastor teólogo. Venho defendendo que o principal grupo que o teólogo serve não é o mundo acadêmico, mas a igreja” (A Trindade, As Escrituras e a Função do Teólogo. Vida Nova. Página 118). Mas, como vinha dizendo, a urgência de ovelheiros é gritante e não é de hoje: “Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9.36) e “Quando Jesus saiu do barco e viu uma grande multidão, teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Então começou a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6.34). Jesus constata que a aflição, o desamparo e a ignorância do povo se dá por falta de pastores ovelheiros. Quais são as principais atividades de um ovelheiro, como ele deve passar os seus dias junto e à frente do rebanho? A principal função de um pastor é apascentar, isto é, levar ao pastor, dar de comer. Alimentar o rebanho é a sua tarefa primordial. Deve, com toda a diligência, cuidar para que sua alma, mente e coração, estejam de tal maneira abastecidos da Palavra de Deus, não só como conceito e discurso, mas sobretudo como experiência do poder do Evangelho em sua vida, que ele tenha como oferecer uma dieta nutritiva e consistente para o seu rebanho. Como ensina o apóstolo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1 Tm 4.16). Doutrina no texto, é a Palavra de Deus, mas podemos entender também toda a dogmática da igreja. ‘A doutrina instrui a cabeça, orienta o coração e dirige as mãos’ (Vanhoozer). A segunda tarefa do ovelheiro é proteger o rebanho de predadores e pragas. Aqui, os seus ofícios de intercessor e epíscopo (supervisor) se encontram. Ele protege o rebanho levando em seu coração o rebanho, como o sumo sacerdote o peitoral (Êx 28.29), o povo que ele pastoreia, quando entra na presença de Deus para a oração. Interceder, lutar com Deus em oração é parte indissociável da tarefa pastoral de cuidar. E como epíscopo (bispo), deve estar vigilante contra os predadores que rondam o rebanho e ou pestes que podem enfermar as ovelhas, em forma de costumes, ensinos, modismos religiosos e/ou pecados não tratados. Na próxima pastoral continuaremos a busca por um ovelheiro e suas qualificações.

Reverendo Luiz Fernando é cuidador das ovelhas do Senhor na Igreja Presbiteriana Central de Itapira.



Fonte: Luiz Santos

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