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Itapira, 16 de Maio de 2021 -
13/04/2021
Luiz Santos: A comunidade de Jesus

Há uma necessidade urgente para a Igreja Evangélica, precisamos recuperar a compreensão de que mais que uma denominação, mais que uma respeitável instituição e muito mais que uma organização religiosa, a Igreja é a comunidade de Jesus. A comunidade dos discípulos de Jesus. De certa maneira, precisamos sofrer um processo de esvaziamento, de simplificação da dinâmica de nossa caminhada cristã. De repente, tornamos as nossas estruturas pesadas, uma intricada e sofisticada engrenagem administrativa e coorporativa. Nos transformamos em um conglomerado de departamentos, ministérios, comissões e comitês dispendiosos que faz com que gastemos a maior parte daquilo que graciosamente arrecadamos das ofertas voluntárias e dos dízimos conosco mesmo, com a sustentação desta indústria da religião. Claro que em si mesmo as nossas estruturas e o modo como nos organizamos não são pecados. Entretanto, podem se tornar quando perdemos de vista que simplesmente deveríamos ser a comunidade dos discípulos de Jesus, que não existimos para nós mesmos e que não estamos abrigados sob esta estrutura com a finalidade de assistir e atender somente às nossas demandas internas, aquelas coisas que agendamos como uma espécie de entretenimento para os crentes ou para desenvolver e fazer a manutenção de uma subcultura cristã, alienada e descolada da realidade. Assim como Jesus, a comunidade dos seus discípulos não pode servir a si mesma e nem mesmo esperar ser servida. Como o seu mestre-fundador, a comunidade dos discípulos existe para servir de maneira nobre e humilde, imitando o seu Senhor, colocando-se aos pés dos demais, indo ao encontro dos pecadores, dos marginalizados, dos sofredores, dos pobres e dos que estão nas periferias existenciais. A comunidade dos discípulos é outrocentrada, ela deve se orientar para aquilo que acontece fora do seu seio, deve ser e possuir uma estrutura de saída. Para que isso se torne possível precisamos reaprender a simplicidade do Evangelho, a simplicidade do seguimento de Jesus Cristo, a desconcertante simplicidade do Reino definitivo. Quais são as práticas dos discípulos que dão leveza e ao mesmo tempo poder para esta vida fraterna? Em primeiro lugar a Igreja é um acontecimento da Palavra. A Palavra faz a Igreja, a sustenta, dirige, corrige e purifica. Fundamentalmente a Igreja de Jesus antes de ser a Igreja da proclamação é um auditório, o auditório do Espírito Santo, é a comunidade da escuta e da acolhida da Palavra. Por isso, para redescobrir a simplicidade dos discípulos, precisamos valorizar, a não poder exagerar, a Palavra de Deus como a fonte, o centro e o ápice da vida cristã, o clímax da adoração. A Palavra deve ser lida, estudada, meditada, ruminada, partilhada, aplicada e pregada até a saturação da mente e do coração. Em segundo lugar, uma vida de oração. Oração como resposta à Palavra acolhida, não como uma iniciativa humana, sempre errática, mas uma resposta às interpelações do que o Espírito diz às igrejas. Uma vida intensa e fervorosa de oração alcança grande liberdade de ação e poder de proclamação e testemunho. A oração comunitária tem ainda o poder de estreitar os laços de amizade entre os irmãos. Em terceiro, outra prática essencial para a redescoberta da simplicidade do Evangelho é o ‘partir do pão’, a celebração solene e ao mesmo tempo singela da Ceia do Senhor. Sentar-se ao redor da mesa com os irmãos e partir o pão entre nós nos eleva a um outro patamar na experiência cristã, faz de nós ‘companheiros’, amigos de peregrinação. Quando sentamos para recordar juntos o Testamento de Jesus, fazer memória de sua paixão e morte, proclamar a sua ressurreição, somos provocados também a considerar a nossa vocação escatológica e orientar toda a expectativa de nossa vida para a vinda definitiva do Reino de Deus na volta gloriosa de Jesus. Assim, apesar de não relativizar o tempo presente, somos levados a experimentar uma indizível liberdade para não viver demasiadamente preocupados com a nossa vida. Por causa disso podemos nos ‘arriscar’ na luta pela promoção da vida, da justiça e da verdade entre os homens. Uma última ação concreta que pode e deve levar-nos ao surgimento de uma simples comunidade dos discípulos de Jesus é a partilha dos bens. Uma cultura de partilha, dadivosidade, generosidade, socorro e demonstração de amor. Palavra, oração e eucaristia têm o condão de sensibilizar o nosso coração para as dores, os sofrimentos e as indignidades dos nossos semelhantes. A ação deliberada em “dar nós mesmos de comer” a esses revela o quanto da essência da simplicidade do seguimento de Jesus pode ser encontrada em nossa profissão religiosa. Sigamos a Jesus na comunidade daqueles que o imitam.

Reverendo Luiz Fernando é Ministro da Igreja Presbiteriana Central de Itapira



Fonte: Luiz Santos

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